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Blog Post

JUN
22
2018

O futuro da piscicultura

Por Linus Blomqvist

A demanda por peixes e frutos do mar está disparando e continuará a aumentar por todo este século. A única maneira de atendê-la será por meio da aquicultura. Mas, ao mesmo tempo em que a aquicultura de próxima geração será muito mais ecologicamente responsável do que as gerações precedentes, ela também vai utilizar muito mais energia. Se essa energia adicional não for limpa e barata, as novas tecnologias não conseguirão cumprir as nossas metas ambientais e climáticas como um todo.

A alta da demanda por peixes e frutos do mar é uma coisa boa, até certo ponto. O peixe é mais eficiente do que a carne suína e a carne bovina, porque exige menos insumos para gerar a mesma quantidade de proteína. Assim, num momento em que o consumo mundial de carne continua a aumentar, faz sentido que uma parcela considerável dela provenha do mar. Por outro lado, a crescente demanda por peixe envolve riscos ecológicos significativos. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), quase um terço dos estoques mundiais de peixe já são explorados em um nível não sustentável, o que significa que as populações selvagens não conseguem se regenerar com a rapidez suficiente para dar conta da taxa pela qual são pescadas. Para atender ao aumento da demanda, um volume maior de peixe terá de ser criado em cativeiro.

Por esse motivo, a aquicultura já é a principal fonte de produção de peixe para consumo humano. Mas, a exemplo da pesca, ela também traz riscos ecológicos. Pelo fato de os sistemas de aquicultura muitas vezes operarem na costa, ou perto de rios ou lagos do interior, eles tendem a desequilibrar os habitats naturais, a contribuir para a poluição por nitrogênio e a aumentar indevidamente a pressão sobre os estoques de peixes criados em cativeiro. Por exemplo, a piscicultura é uma das principais impulsionadoras da devastação do mangue no Sudeste Asiático.

Mas, mesmo tendo em vista esses desafios de ordem conservacionista, a aquicultura continua sendo a única alternativa para atender à demanda futura.

No curto prazo, as fazendas de peixe podem se tornar mais limpas. Alguns produtores responsáveis lançaram novas técnicas e novas tecnologias para combater a poluição, que vão desde monitorar o consumo de ração com câmeras de vídeo até integrar animais ou plantas que atuam como filtros, como moluscos e algas, nos seus sistemas. Outros estão tentando reduzir sua dependência de peixes coletores por meio da substituição das rações para peixes por proteínas vegetais, ou adotando novas biotecnologias para produzir ração para peixe de maneira mais sustentável.

Para o longo prazo, portanto, os especialistas geralmente oferecem duas maneiras de avançar: sistemas de recirculação em terra e a aquicultura em águas profundas. Ambos poderão potencialmente mitigar as externalidades negativas da aquicultura e tornar a produção de peixes sustentável por um bom período.

De acordo com a primeira maneira, as fazendas de peixe migrariam do mar para sistemas de recirculação aquícola (RAS, nas iniciais em inglês) nos quais os peixes são abrigados em tanques instalados em recintos fechados regulados por bombas, aquecedores, aeradores e filtros. Uma das maiores vantagens desse método é sua adaptabilidade.

E, o que é ainda melhor, esses sistemas são concebidos para reciclar quase toda a água que usam, o que elimina o problema da poluição litorânea. Consequentemente, a organização de defesa Seafood Watch atribui atualmente a todo peixe criado em unidades com RAS a certificação “Best Choice”.

A outra opção é migrar a aquicultura para a direção contrária: para o alto-mar. Os sistemas em águas profundas
capitalizam as forças do mar, ao usar a maior profundidade das águas e a maior força das correntes para canalizar os
excedentes de nutrientes e os resíduos para áreas distantes dos ecossistemas litorâneos sensíveis. Em decorrência disso, eles não precisam de bombas ou de filtros mecânicos (embora fazendas motorizadas possam acabar povoando o mar).

Nos Estados Unidos, o setor de aquicultura começou a mudar para a produção com RAS. Uma empresa norueguesa acaba de anunciar planos de construir uma enorme fazenda de salmão em terra no Estado do Maine. E exemplos de projetos em águas profundas podem ser encontrados ao largo da costa da Noruega, da Califórnia e do Havaí. Mas ambos os sistemas ainda são um nicho, e não a norma.

Um dos principais problemas dos métodos mais limpos de aquicultura é o fato de serem intensivos em consumo de
energia. Com sistemas terrestres, processos naturais como filtração e troca e dispersão de água têm de ser executados mecanicamente, o que exige muita energia elétrica. Isso não é necessariamente problema em lugares com redes de energia elétrica de baixo carbono, como a da França, mas seria problema em lugares como a província canadense de Nova Escócia, altamente dependente do carvão.

Da mesma forma, as operações em águas profundas exigem diesel para o transporte e a manutenção, e essa necessidade persistirá enquanto barcos elétricos ou combustíveis líquidos de baixo carbono não se tornarem mais viáveis. Embora a aquicultura em mar aberto deva, de qualquer maneira, exigir menos diesel do que a pesca comercial – e tenha possibilidade de operar com fontes de energia renovável, como a solar, a eólica ou a energia das ondas -, a aquicultura em águas profundas é mais intensiva em consumo de energia do que as fazendas de peixe convencionais.

E, mesmo se sistemas de aquicultura mais novos puderem superar seus atuais desafios operacionais e regulatórios, seu maior obstáculo será a indisponibilidade de energia barata, de baixo carbono. Enquanto os combustíveis fósseis
responderem pela maior parte do uso mundial de energia, a promessa ambiental de uma aquicultura de próxima geração continuará não cumprida.

Isso vale para uma ampla gama de setores. Sem energia mais limpa e mais barata extensível a todos, não conseguiremos cumprir nossas metas ambientais e climáticas mais amplas. Nossas atuais tecnologias energéticas – inclusive a nuclear e a dos recursos renováveis – ainda têm muito a avançar para atender à demanda energética. Nesse ínterim, o setor de aquicultura terá de fazer novos investimentos e desenvolver novas inovações para tomar o caminho da sustentabilidade – seja em terra ou no mar. (Tradução de Rachel Warszawski)

Linus Blomqvist é diretor do Programa de Conservação e do Programa de Alimentos e Agropecuária do Breakthrough Institute. Copyright: Project Syndicate, 2018. www.project-syndicate.org

Publicado por Valor Econômico

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